domingo, 13 de março de 2011

Transformação

Quer me derrubar
Vem, mais vem no peito
Vem direito
Que eu vou cair em paz

E logo depois levanto melhor
Levanto mais forte
Porque nem a morte
Me espanta mais

Se é para amar amo sem medidas
Se a idéia é odiar nem perco meu tempo
Não me esquivo mais das pancadas
Aceito a porrada e transformo a energia

Nada mais me para
Sem que meu pai permita
Encaro a vida na cara
E sigo pelas estradas partidas

Partidas ao meio
Divididas pela teimosia
Das pessoas que insistem
Em não mergulhar na vida.

(Anna Araujo)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Insistência

Para que insisto em ser entendida?
Se não nasci com bula nem posologia.
Porque me exaspero quando não me compreendem?
Se sei que jamais serei compreendida.

Estou pedindo baixa nesse quartel
Quero pedir desculpas a todos
Mas vou me retirar com descrição
E não terei tempo pra desculpas formais

A hora avança e o tempo chega
Não acredito em fim
Não coloco pontos finais
Nesse momento apenas utilizo os três pontos

Tudo deve continuar
Aqui ou em outro lugar
Mas a rota é diferente
E não sei dizer por quanto tempo

"Talvez volte
Um dia eu volto quem sabe
Mas eu preciso”
Eu preciso esquecer tanta coisa...

(Anna Araujo)

terça-feira, 1 de março de 2011

Carta de Despedida

Quando me negava a fazer planos para o futuro e você abaixava a cabeça como quem faz questão de me mostrar que não sou prisioneira do nosso sentimento, sou sim uma das partes vitais, o cérebro ou talvez o coração. Mas não, logo depois segurava sua cabeça entre minhas mãos e dizia: Querido, você sabe que eu sempre parto. Esse sangue cigano não me permite fixar residência em nenhum coração, por mais que queira ficar, não sei, nunca soube esperar o fim de nada. Por isso, parto antes, talvez por isso, não sei bem ao certo. Sei que sempre se negou a acreditar nisso, mas agora é chegada a hora da partida, sei, sinto. Algo por dentro de mim me diz que tenho que seguir sem você, mas não sei, não existe mais mundo sem o espelho de seus olhos, por isso vaguei pela casa a noite passada, por isso não fui me deitar junto contigo como sempre fizemos. Algo dentro de mim, bem aqui, no centro do meu peito anuncia o fim, o fim do nosso caso, o fim da paz que conquistei em seus braços. Por muitos lugares vaguei antes de aportar aqui, agora faltam forças para puxar a ancora, vejo seus olhos fechados, seu sono sempre foi lindo, os lábios semi-serrados como se ocultasse um sorriso prestes a explodir a qualquer momento, sinto que já sei mais de você que de mim. Não quero recomeçar, recomeçar é andar pra frente. Mas só quando se chegou ao fim, não quando se está no meio. Quero levar seus olhos para mim, se pudesse iria embora e te guardaria dentro de uma caixinha. Assim toda vez que sentisse saudade de casa te tiraria e me esconderia no seu corpo, como fiz, como fizemos tantas vezes numa fuga mútua em uma proteção incontida, no único esconderijo confortante que o corpo humano pode oferecer aos adultos. Mas não posso te guardar para mim, os sinos da partida agora soam no meu peito, ficaria o resto da noite contemplando seu sono, meu menino paterno, mas é chegada a hora e depois, se por um descuido do destino você acordasse me impediria de partir. Preparo o drink e o frasco com os tranqüilizantes, ingiro tudo de um gole só e poucos minutos depois minha cabeça pende sobre a mesa, tapando o bilhete, só deixando a mostra o trecho que diz: Beijos de quem está cansada de partir. Ps: Te amo pra sempre.